Mais uma “biblioteca” se vai no Vale do Javari

A Coordenação da Organização Indígena UNIVAJA, em nome dos povos Marubo, Mayoruna (Matsés), Matis, Kanamary, Kulina-Pano, Korubo e TsohomDjapá vem a público informar às demais organizações indígenas, indigenistas, nossos parceiros, à imprensa e aos interessados na causa indígena que faleceu ontem às 07 horas da manhã, na Aldeia Maronal, alto rio Curuçá, o Ivinimpapa Marubo. Para o povo Marubo, um Estadista, um humanista e autêntico líder ancestral de um povo, papel esse que honrou até o dia de ontem. Mais conhecido por “Alfredão”, devido ao seu papel, reconhecido entre os seus como “o cacique geral do povo Marubo”, uma responsabilidade concedida pelo seu pai, o lendário Niwa-Wani.

Ivinimpapa esteve a frente do povo Marubo nas últimas décadas e teve um papel fundamental nas conquistas que essa etnia alcanço nesse tempo, dentre as quais a relação com o Estado, com os parceiros, com as cidades vizinhas. A sua filosofia repassada a gerações inteiras foi de sempre “pautar, moldar e fazer com que o estrangeiro conheça o povo Marubo, para a partir daí haver uma interação mínima”; “Lembrem-se que para a maioria deles somos diferentes”; “falem como quem vai a guerra, mas com palavras de anjos”; “palavras vazias têm de ser ditas, algumas têm de parecerem não fazer nenhum sentido, de propósito, ao estrangeiro; não somos obrigados a dizer tudo a quem sempre nos demonstrou querer nossa extinção”, Para Ivinimpapa era assim que o povo Marubo deveria se comportar: “Levar às últimas consequências por meio da diplomacia, para sempre terem o argumento do “eu sempre avisei”.

A morte de Ivinimpapa representa uma “biblioteca” a menos no Vale do Javari. Para um povo que o repasse de conhecimentos de geração em geração é feito de forma oral, essa perca é literalmente irreparável. Uma das preocupações desse grande líder Marubo estava ligada aos retrocessos na proteção territorial e políticas públicas que estão sendo nefasta à vida nas comunidades do Vale do Javari. A precariedade das Politicas de Educação, em todos os níveis, têm levado a maioria dos jovens para as cidades; o sucateamento do órgão indigenista tem contribuído para a interferência nefasta de órgãos como as Prefeituras locais no cotidiano das aldeias, bem de missionários fundamentalistas, causando intrigas internas e até a separação de famílias” entre prós e contra”, além do aumento populacional nas regiões urbanas; à vulnerabilidade dos povos isolados e integridade territorial do Vale do Javari.

Hoje e daqui por diante os Manã Nawas (novos Marubo adaptados à nova realidade) terão a reponsabilidade de honrar e seguir em diante com a filosofia, os ensinamentos e a luta pela sobrevivência, algo que Ivinimpapa lhes trouxe até os dias atuais.

Atalaia do Norte – AM, 31 de outubro de 2021.

A Coordenação da UNIVAJA

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