Categoria: Vozes do Javari

Mutirão da Defensoria Pública e Univaja atende mais de 300 indígenas em Atalaia do Norte

Mutirão reúne diferentes etnias e revela demandas históricas por documentação, previdência e pensão alimentícia e amplia acesso ao direitos e à justiça para os povos do Vale do Javari Uma ação desenhada pela Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) em parceria com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) realizou entre os dias 7, 8 e 9 de março um mutirão na sede da entidade, em Atalaia do Norte, para atender indígenas de diversas etnias, como Kanamari, Marubo, Mayuruna Matsés, Kulina e Matis. Embora inicialmente planejada para atender indígenas em contexto urbano, a mobilização ganhou outra dimensão. Diante da alta demanda e da dificuldade de acesso a serviços públicos, famílias inteiras percorreram longas distâncias para chegar até a cidade. Algumas comunidades enfrentaram até três dias de viagem de rabeta (pequena embarcação movida a motor)  para receber atendimento jurídico gratuito. Entre as principais demandas, questões relacionadas a registros e documentação civil se destacaram. Mas também houve quem buscasse resolver conflitos familiares, como a jovem Sônia Mayuruna, de 21 anos, que procurou a Defensoria em busca de pensão alimentícia para o filho de sete meses.  Sônia conta que o pai da criança deixou a família logo após o nascimento do bebê. A esperança surgiu quando ela recebeu, pelo celular, um vídeo informando sobre a presença da Defensoria na cidade entre os dias 7 e 9 de março. “Eu não sabia que tinha esse direito, mas chegou pra mim o aviso através das lideranças de que a Defensoria também ia resolver questão de alimentos para crianças. Foi quando eu fui procurar saber o que era”, relatou.         O atendimento foi feito pelo defensor público Vinicius Mariani. Mesmo com certa timidez, Sônia conseguiu responder às perguntas necessárias para identificar o pai da criança. Durante a conversa, o defensor explicou que a pensão alimentícia pode assumir diferentes formas. “Mesmo que ele não tenha renda fixa, se trabalhar no campo, por exemplo, a pensão pode ser paga em dinheiro ou até in natura, com alimentos que ele produza”, explicou. O Defensor Público Geral do Amazonas, Rafael Barbosa, afirmou que a ação representa mais um passo na aproximação da instituição com os povos indígenas. “Desde 2024, quando a Defensoria criou o Núcleo Especializado em Proteção e Defesa dos Povos Indígenas e Comunidades Tradicionais (Nudcit), temos buscado estar nas comunidades, ir até as aldeias, porque muitas vezes essas populações sequer sabem que têm direitos. O trabalho da Defensoria hoje é encontrar esse caminho para que essas pessoas tenham segurança, confiem na instituição e possam reivindicar seus direitos agora e no futuro”, disse. Para ele, iniciativas como essa também ajudam a reparar um histórico de ausência do Estado brasileiro junto aos povos indígenas. A coordenadora do Nudcit, defensora pública Daniele Fernandes, explica que a presença de indígenas vindos de comunidades distantes revela o tamanho da demanda reprimida por serviços jurídicos na região. “Nosso objetivo é nos aproximar ainda mais dos povos indígenas. A partir desta ação, vamos programar outras atividades também dentro das terras indígenas. Nós já realizamos algumas ações, temos a expertise e protocolo de realizar os atendimentos respeitando toda cultura e tradicionalidade dos povos”, afirmou. Segundo ela, as demandas mais recorrentes envolvem retificação de registro civil, registro de nascimento tardio e questões previdenciárias, que posteriormente são encaminhadas à Defensoria Pública da União. Para o vice-coordenador da Univaja, Varney Kanamary, a parceria com a Defensoria representa um avanço importante no acesso à justiça para os povos da região. “Nossa organização representa sete povos diferentes. Essa parceria é muito importante e acontece pela primeira vez. A maior dificuldade hoje é garantir que nossos parentes tenham acesso à justiça, principalmente por causa das grandes distâncias. E quando chegam à cidade, muitas vezes ainda enfrentam racismo ou não conseguem atendimento por falta de protocolos específicos para povos indígenas nos órgãos públicos”, afirmou. A ação contou com tradutores de diversas línguas. Representante do povo Mayuruna, Maurício Mayuruna ajudou a organizar a ida de moradores de três comunidades diferentes até a cidade. Ele reuniu três canoas e trouxe mais de 15 pessoas que precisavam de atendimento jurídico e ajudou na tradução. Segundo ele, problemas em registros civis são frequentes. “O cartório erra muito o nome do pai, das crianças ou da mãe em nossos documentos. Depois isso gera muita dificuldade. Por isso precisamos de mais ações como essa, mas também dentro das aldeias”, pediu. Mutirão e Cartilha sobre os Direitos das Mulheres Indígenas Foram oferecidos atendimentos nas áreas de Família — como pensão alimentícia, execução de alimentos, guarda, reconhecimento de paternidade, declaração de união estável e divórcio —, além de demandas previdenciárias, como salário-maternidade, pensão por morte, auxílio por incapacidade, aposentadoria e Benefício de Prestação Continuada (BPC). Durante o evento também foram entregues cartilhas explicativas sobre os Direitos das Mulheres Indígenas, com informações sobre como elas podem se defender em casos de violência doméstica e misogênia. Também são realizados atendimentos cíveis e de registros públicos, incluindo retificação de certidões, emissão de segunda via de documentos, inclusão da etnia no registro civil e registros tardios de nascimento e óbito, além de orientações na área criminal. Parcerias A ação também contpu com o apoio da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai), que atua como parceira na iniciativa, auxiliando a Defensoria Pública tanto nos atendimentos quanto na logística da ação. A presença da Funai tem sido fundamental para facilitar o diálogo com as diferentes etnias, orientar os indígenas durante os atendimentos e apoiar a organização da estrutura que permite que os serviços cheguem de forma mais eficiente aos povos do Vale do Javari. Retificação de registros públicos, como registro de nascimento tardio, e ações da área de Família, como pensão alimentícia e reconhecimento de paternidade, foram as principais demandas da Defensoria Pública do Estado do Amazonas (DPE-AM) durante o mutirão realizado em Atalaia do Norte (a 1.138 quilômetros de Manaus). A ação em parceria com a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja) aconteceu entre os dias 7 e 9 de março, na sede da organização

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Festival dos Povos Indígenas do Vale do Javari celebra a riqueza cultural e ancestral dos povos da região

Entre os dias 3 e 5 de outubro, a cidade de Atalaia do Norte foi palco do Festival dos Povos Indígenas do Vale do Javari, um evento marcado pela celebração da diversidade cultural, dos saberes tradicionais e da valorização da identidade dos povos indígenas da região. Realizado pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA), o festival reuniu apresentações culturais, oficinas, rituais e mostras de arte e medicina tradicional, fortalecendo o diálogo entre culturas e promovendo o reconhecimento da herança ancestral do Vale do Javari. Um projeto que contou com o apoio da Rainforest Foundation Norway. A cerimônia de abertura, realizada no dia 3 de outubro, marcou o lançamento de um projeto voltado à promoção da igualdade étnico-racial e valorização dos saberes ancestrais. O evento aconteceu na Tenda Celebrações do Javari na praça central da cidade, e contou com a presença de autoridades locais — como a primeira-dama do município e o secretário de Cultura —, além de lideranças indígenas, entre elas Bushe Matis, coordenador da UNIVAJA, e Thodá Kanamary, vice-coordenador da organização. A Tenda dos Saberes do Javari abriu suas atividades com uma mostra de arte e artesanato indígena, apresentando ao público a riqueza estética e simbólica das expressões culturais da região. O momento foi seguido por uma apresentação do povo Kanamary, que encantou os presentes com cânticos e danças tradicionais. Durante a abertura, as falas das lideranças destacaram a importância de iniciativas que estimulem os jovens indígenas na preservação e continuidade de suas culturas. Rituais, oficinas e apresentações marcam a programação cultural Ao longo dos três dias, o festival ofereceu uma programação diversificada que proporcionou ao público uma imersão nas expressões culturais, cosmologias e práticas tradicionais dos povos do Vale do Javari. Na primeira noite, a Tenda Celebrações foi palco dos rituais do povo Matis, com destaque para o Ritual do Mariwin, em que espíritos ancestrais são representados por máscaras e pinturas corporais de jenipapo. A cerimônia, marcada por humor e intensidade, expressa o valor da disciplina e da convivência coletiva. Em seguida, a Dança da Queixada foi apresentada pelos homens Matis, celebrando a fartura da caça e reforçando o equilíbrio ecológico e espiritual da atividade. O segundo dia do evento concentrou as atividades na Tenda dos Saberes, com oficinas de tecelagem de pulseiras Matses, sessões de contação de histórias com anciãos e apresentações sobre o ofício das parteiras tradicionais e o casamento Matses, conduzidos por mestres e mestras de saberes. Um dos momentos mais aguardados foi a demonstração do uso do Kambo Matses, prática tradicional de cura realizada por xamãs e curandeiros indígenas. O público pôde conhecer os fundamentos dessa medicina, utilizada há gerações como revigorante para a caça e, mais recentemente, também presente em contextos urbanos. À noite, as atividades seguiram com exibições de cinema indígena, danças e cantos do povo Marubo, além de novas apresentações do Mariwin Matis e cantos tradicionais dos povos Matses e Kanamary, como o Canto do Pássaro Isko e o Canto das Mulheres Mariwin Vermelho. Povos e saberes: ancestralidade em movimento O Festival dos Povos Indígenas do Vale do Javari evidenciou a profundidade espiritual e simbólica dos povos participantes — Matis, Marubo, Matses e Kanamary —, cada qual compartilhando aspectos de sua cosmologia, medicina e expressões artísticas. O festival encerrou-se reafirmando o compromisso coletivo da UNIVAJA e das lideranças indígenas com a preservação das culturas e o fortalecimento das identidades dos povos do Vale do Javari. Mais do que um encontro cultural, o evento representou um espaço de reconhecimento, diálogo e valorização da diversidade indígena, destacando o papel das comunidades na construção de um futuro pautado pela memória, pela arte e pela força ancestral.

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UNIVAJA realiza o 1° Encontro dos Monitores Etnoambientais da Equipe de Vigilância (EVU)

A União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) realiza, entre os dias 21 de julho e 1º de agosto, o 1° Encontro dos Monitores Etnoambientais da Equipe de Vigilância da UNIVAJA (EVU) – uma grande reunião que será realizada no  Centro de Treinamento do Quixito. A EVU é um projeto pioneiro em termos de formação de equipes de vigilância em Terra Indígena no Brasil e que existe graças ao apoio e financiamento da Fundação Nia Tero. As equipes da EVU foram formadas aos poucos, passando por diversas etapas durante dois anos e meio até culminar neste momento, o do grande encontro das seis equipes de indígenas que hoje são responsáveis pelo cuidado e proteção das áreas onde vivem dentro da TIVJ. “Este é o último passo do projeto EVU 2.0, que foi apresentado em 2021. Conseguimos cumprir essa meta, realizar todos os treinamentos e, agora, vamos encerrar esse processo com o encontro. São mais de cem pessoas, muitos nem se conhecem. Vamos, também, unir pela primeira vez a todos junto com a turma de veteranos que coordenam a EVU”, explica Possuelo. Em 2024, esse projeto foi agraciado pelo Programa de Desenvolvimento da ONU (PNUD) com o Prêmio Equatorial junto a outras 11 iniciativas de todo o mundo selecionadas entre mais de 600 candidatos. “Esse é um projeto bastante reconhecido internacionalmente, mas pensado completamente para atender demandas de dentro da TI. Há indígenas que trabalham com a gente e nem documento têm ainda. Mas não temos preconceito, aceitamos a todos, participam homens e mulheres de todas as idades (maiores de idade) desde que tenham força de vontade e disposição para trabalhar em campo. Mais do que isso, nós fazemos questão de pagar os vigilantes. Respeitamos o fato de que, mais do que força de vontade, eles fazem um importante trabalho”, complementa o coordenador. A EVU é a única equipe de vigilância do país que paga um salário para seus integrantes. Nesse longo processo, a UNIVAJA desenvolveu projetos de embarcações específicas para trabalhar na TIVJ, as quais incluem uso de energia solar e internet. “Nada foi fácil, mandamos fazer barcos e tivemos que trazê-los pilotando durante sete dias desde Manaus. Todas as etapas tiveram seus desafios. O mais difícil foi gerir o pessoal. Nadamos um bom tempo contra a corrente, mas confiamos nos parentes e agora eles são os responsáveis pelo seu próprio território”, relembra Possuelo. Durante esses 10 dias no CT Quixito os monitores terão sua formação reforçada com oficinas e aulas sobre mecânica, protocolos de segurança, técnicas de sobrevivência, GPS, navegação, manutenção de embarcações (elétrica, hidráulica e fotovoltaica), marcenaria e relatórios e registros de notícia-crime. O Encontro também contará com as presenças de apoiadores como os Expedicionários da Saúde (EDS), do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) e da World Wildlife Fund (WWF).  Também estará presente o jornalista Scott Wallace que há 23 anos acompanhou uma expedição no Vale do Javari em busca de sinais de prova da presença de indígenas isolados. Wallace escreveu uma matéria que foi capa da National Geographic e deu origem ao livro “Além da Conquista”. “Estou emocionado em voltar depois de tantos anos, aquela foi uma viagem que mudou a minha vida”, conta o jornalista. O CT Quixito é um antigo projeto idealizado pela UNIVAJA, – finalizado com apoio  Rainforest Foudantion Norway – e que começa a ser utilizado este mês em benefício de todos os povos da Terra Indígena.

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Saúde em foco no Março Lilás na UNIVAJA

Neste Mês da Mulher, a União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (UNIVAJA) promoveu, nos dias 12, 13 e 14 de março, com importantes palestras sobre a saúde da mulher indígena com a enfermeira Maria Neicione e a psicóloga do Distrito Especial Sanitário Indígena (DSEI) Celane da Cunha Martins. A saúde mental e a prevenção de doenças foram o foco principal das palestras, que tem como objetivo compartilhar estas informações que são essenciais para a qualidade de vida de todas as mulheres da Terra Indígena do Vale do Javari. Quando e como pedir ajuda, como encarar dificuldades e não se isolar diante dos desafios foram alguns dos temas mencionados na palestra sobre saúde mental pela psicóloga Celane Martins. “Nós somos a roça do mundo, então nós precisamos nos cuidar, para nossa roça ficar bonita nós temos que estar bem, as mulheres acabam cuidando muito dos outros e esquecem de si mesmas”, lembrou a psicóloga. Ela também falou sobre como a colaboração e a amizade entre as mulheres pode fazer a diferença na hora de encarar os problemas. Já a enfermeira Maria Nelcione destacou a importância da realização de exames preventivos de diversas doenças, entre elas o câncer do colo do útero, – um dos que mais mata mulheres no Brasil hoje – e, também, outros exames que podem e devem ser feitos anualmente para evitar sérias questões de saúde. Nelcione também comentou sobre a vacina contra o vírus HPV que deve ser tomada, na rede SUS, por meninos e meninas entre os 9 e os 14 anos. A enfermeira comentou ainda que a abertura de diálogo através de palestras como essa já fez com que algumas mulheres a procurassem e permitiu a realização de exames que detectaram câncer em estágio inicial, permitindo o tratamento e a cura. Ela também reforça que as mulheres devem evitar bebidas e cigarro, causadores de doenças. A UNIVAJA em parceria com o Vale da Arte promove estas atividades dentro do Março Lilás, uma campanha nacional que visa conscientizar e incentivar o cuidado com a saúde feminina.

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