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VIII Encontro Binacional Matsés Brasil-Peru

O VIII Encontro Binacional entre os Matsés do Brasil e do Peru aconteceu entre os dias 20 e 22 de agosto de 2022, na aldeia Trinta e Um, localizada no rio Jaquirana, Terra Indígena Vale do Javari, estado do Amazonas.

O encontro contou com a participação de mais de cem pessoas de diferentes aldeias matsés dos dois países, com representantes das aldeias Cruzeirinho, Soles, São Meireles, Lobo, Puerto Alegre, Puerto Tumi, Santa Rosa, San Roque, Estiron, Buenas Lomas Nuevo, Buenas Lomas Antiguo, Cashishpi, Paujil, Anushi, Jorge Chaves, San Mateyo, San Juan, Remoyaco, Buen Peru, Limon, San Ramon, Monte Verde, e Fray Pedro.

Na ocasião, diversos temas foram discutidos, conforme a programação inicialmente prevista, dentre eles a proteção territorial. O Encontro contou com a participação dos parceiros da Fundação Nacional do Índio, Secretaria Especial de Saúde Indígena, Centro de Trabalho Indigenista e Organización de Pueblos Indígenas del Oriente.

Ao final do evento, a partir das discussões, os Matsés produziram alguns documentos, como uma carta endereçada à presidência da FUNAI e o documento final da VIII Binacional para ser entregue às autoridades dos governos brasileiro e peruano.

PROGRAMAÇÃO – VIII Reunião Binacional Matses 2022

Carta à Funai_Binacional 2022

Documento final Binacional Matses 2022_Espanhol

Documento final Binacional Matses 2022_Português

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‘Fui obrigado a entrar em terra indígena com um missionário’, diz servidor da Funai

Biólogo relata os conflitos com a ministra Damares e denuncia a ação de evangélicos para apagar tradições ancestrais; investida de religiosos contra isolados se intensificou com nomeações no governo Bolsonaro

MERLINO, Tatiana. ‘Fui obrigado a entrar em terra indígena com um missionário’, diz servidor da Funai. Bocado.
Disponível em: Link. Acesso feito em: 25/11/2020.

A terra indígena onde vivem os Suruwahá, no sul do Amazonas, é um dos alvo das investidas de missionários evangélicos (Foto: Daniel Cangussu-FPE Madeira Purus/Funai)

Localizar, proteger e monitorar povos indígenas isolados e de recente contato no sul do Amazonas era a principal tarefa do biólogo Daniel Cangussu, que entre 2010 e 2019 foi coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental (FPE) Madeira Purus da Funai. Nos dois últimos anos em que ficou cargo, porém, ele passou a receber pressões para ir na contramão da sua função e organizar expedições de missionários evangélicos a um território indígena onde não deveriam entrar.

Cangussu trabalhava junto ao povo de recente contato Suruwahá e em ações de localização dos isolados do Hi-Merimã e de todos os demais isolados não identificados da região. Embora avalie que a Funai tivesse uma vigilância eficiente, o monitoramento do território Hi-Merimã sempre foi um desafio, porque a população é grande e se movimenta por uma área extensa. “E no entorno há muitos missionários que querem evangelizar os isolados”, conta. “Nós tínhamos um controle grande da saúde dos funcionários quando atuávamos nesses territórios. Mas essa não é uma preocupação dos missionários”, critica.

“Por isso, quando me perguntam quais as principais pressões territoriais para os isolados, respondo que não são os madeireiros, os garimpeiros e os povos do entorno. São os missionáios.”

Em 2018, por exemplo, ele expulsou o missionário Steve Campbell, ligado a igreja americana Greene Baptist, que havia entrado ilegalmente na terra Hi-Merimã. “Ele se sentiu confiante com a nova conjuntura [eleição do presidente Jair Bolsonaro] para fazer essa expedição. “Foram instaurados um processo de acompanhamento do Ministério Público Federal e um processo administrativo interno da Funai.”

 

Resistência e imposição

O servidor da Funai conta, no entanto, que o momento de maior tensão da sua vida profissional ocorreu um mês após Jair Bolsonaro vencer as eleições presidenciais, em outubro de 2018.

Cangussu foi designado pelo presidente da Funai a organizar uma visita à terra indígena dos Suruwahá. O objetivo era que a comunidade recebesse Muwaji Suruwahá, indígena que havia sido retirada de lá pela Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai) anos antes com o intuito de levar a filha para Brasília, onde teria tratamento de saúde. Muwaji e sua filha nunca mais voltaram.

A incursão, no entanto, não seria feita só por ela – já convertida em evangélica e integrante da Jovens com uma Missão (Jocum) – mas também por seus filhos e na companhia de um missionário da Jocum, Darci Azevedo Cunha. Anos antes, Azevedo havia morado na mesma terra indígena, antes de ser retirado por decisão do Ministério Público.

A solicitação para a visita havia sido feita pelo então senador e pastor evangélico Magno Malta, que à época tinha como assessora a hoje ministra da Mulher, Família e Direitos Humanos, Damares Alves. “Fui obrigado pelo presidente da Funai, por meio do assédio de Magno e Damares, a entrar na terra indígena com um missionário”, conta o biólogo. A ministra é fundadora da ONG Atini, investigada pelo Ministério Público Federal por tráfico e sequestro de crianças.

Cangussu conta que mostrou resistência à ideia. “Disse que estava havia quase 10 anos fazendo o contrário [impedir a entrada de missionários]. E o que me disseram foi que, se eu não quisesse, iriam providenciar alguém para fazer.”

A visita durou uma semana e foi “tensa”, ele diz. Por falar a língua dos Suruwahá, o missionário tinha conversas isoladamente com alguns deles. “Foi ruim ter que usar a logística da Funai em prol dos missionários. Foi uma espécie de prenúncio do que iria acontecer depois”, observa, referindo-se à nomeação de Ricardo Lopes Dias, ex-missionário evangélico, para coordenador na Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) da Funai.

 

Casa de conversão em Brasília

Muwaji vive hoje em uma casa em Brasília com dois filhos, onde também moram outros indígenas retirados pela Sesai de outras terras e que nunca mais retornaram aos seus lares de origem. “Nessa casa moram indígenas formados para serem pastores”, explica o servidor. “A estratégia deles é: se não conseguem entrar nas terras com os missionários, entram com indígenas que se converteram, já que não se pode impedir a entrada de indígenas nas aldeias.”

A reportagem entrou em contato com Funai, Sesai, o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos e com o ex-senador Magno Malta. Nem o pastor nem os órgãos governamentais se pronunciaram.

As ações dos missionários entre os indígenas isolados e povos de recente contato se intensificaram com nomeações no governo Bolsonaro (Foto: Daniel Cangussu-FPE Madeira Purus/Funai)

Cangussu afirma que teve conflitos com Damares e missionários durante nove anos, por conta das investidas em áreas de índios isolados ou de recente contato. Tanto que pouco após a expedição, no começo de 2019, ele pediu para ser transferido. Hoje, ele é é chefe da Coordenação Técnica Local da FUNAI em Teófilo Otoni, em Minas Gerais. “Meu presidente [da Funai] é um delegado da Polícia Federal que nomeou um missionário para assumir a Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato. Nosso chefe é nosso principal rival”, define. “É muito triste, coloca a gente na lama em todos os sentidos. Se meia dúzia de índios for evangelizada, para eles valeu o preço, caso muitos morram.”

O biólogo faz questão de ressaltar que esses não são casos isolados. Nos seus nove anos na Frente de Proteção Etnoambiental, ele presenciou e teve conhecimento de outras ações que colocavam em risco povos indígenas e tradições ancestrais. Caso de um importante ritual de passagem das indígenas Banawá, que vivem no sul do Amazonas — um momento importante para as jovens, de orgulho, quando deixam de ser meninas para virarem mulheres.

A cerimônia, conta o biólogo, foi interrompida por missionários evangélicos que chegaram com doces e balões. A moça que seria “iniciada” ficou revoltada com a situação, se sentiu desprestigiada. “E todo um rito se reduz a crianças comendo balas”, relata. Os missionários interromperam um costume ancestral para impor sua maneira de comemorar aniversários. Outra vez, como há 500 anos, a religião é uma forma de conquista.

Historicamente, não faltam casos de interferência de evangélicos fundamentalistas sobre o modo de viver dos povos indígenas, sejam eles isolados ou não. Mas o alerta em relação às investidas de missões evangélicas que têm como objetivo converter os índios ao cristianismo aumentou não apenas com a nomeação de Lopes Dias, mas também com a escolha de Damares como ministra. Ambos afirmaram ser a favor da revisão da política de isolamento de indígenas.

 

Contato mortal

No Brasil, os indígenas têm direito a permanecer isolados. É uma política instituída em 1987, em meio à elaboração da nova Constituição, que reconheceu uma série de outros direitos antes negados. A estrutura pública encarregada desse assunto foi criada para garantir a proteção dos indígenas e das terras onde vivem, impedindo invasões. Atualmente, há o registro de 114 grupos de isolados, dos quais 28 estão confirmados – os demais estão sob investigação.

Os isolados vivem de forma autossuficiente, com recursos oferecidos pela natureza, e contatá-los pode ser mortal. De acordo com Douglas Rodrigues, médico sanitarista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) especializado em saúde indígena, após o contato, alguns povos perderam 90% de sua população. É o caso dos Nambikwara. Antes do contato, eram 10 mil indivíduos. Nove mil morreram em decorrência de epidemias de sarampo, gripe, coqueluche e gonorreia. A informação consta no documento “Cercos e Resistências: Povos Indígenas Isolados no Brasil”, produzido pelo Instituto Socioambiental (ISA).

A insatisfação com a nomeação de Lopes Dias é compartilhada por entidades indígenas como a Apib e a Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab). A preocupação é que a presença dele abra caminhos para mudanças na política de proteção aos isolados da Funai e o órgão se torne uma ferramenta de proselitismo religioso. O censo do IBGE aponta que o percentual de indígenas evangélicos saltou de 14% para 25% entre 1991 e 2010. Uma pesquisa de 2020 do Instituto Datafolha mostra que essa fatia na população em geral já é de 32% e que, no Norte do país, os evangélicos representam 39% da população.

Ao inserir valores cristãos, a presença de missionários em aldeias pode impactar as tradições ancestrais e a organização social dos indígenas (Foto: Daniel Cangussu-FPE Madeira Purus/Funai)

Os números indicam que as estratégias dos evangélicos para a região têm dado certo. E, com isso, o processo de evangelização dos indígenas vive hoje o que se chama de “terceira onda missionária”.

A primeira das etapas da ação dos missionários em aldeias no Brasil corresponde à dos estrangeiros evangelizando indígenas, quando chegaram ao país. A segunda, de brasileiros evangelizando indígenas. E a terceira e atual é a formação de indígenas pastores que evangelizam outros indígenas. A fronteira final é acessar os isolados.

 

Demônios, rachas internos e lojinhas

Na primeira onda, no final dos anos 1940, duas grandes missões norte-americanas chegaram ao Brasil para evangelizar indígenas: a Missão Novas Tribos do Brasil (MNTB), então braço brasileiro da News Tribes Mission [e que hoje mudou o nome para Ethnos 360], e a Summer Institute of Linguistics (SIL).

“Nossa relação com os evangélicos e a MNTB é muito antiga, vem desde a década de 1940. E os resultados são a modificação da nossa vida tradicional do povo Marubo. Só perdemos. Eles condenaram determinadas práticas, que foram abandonadas com o tempo”, define Eliesio da Silva Vargas, representante jurídico da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja).

Além de levar doenças e causar mortes, os missionários alteram ritos e visões ancestrais indígenas, e consequentemente sua cultura e organização, ao inserir valores cristãos.

“Eles estão em vários lugares do mundo. Desde o século passado estão entrando em grupos indígenas sem nenhum controle. Têm uma coisa capilar, fundam igrejas locais, formam pastores locais e, quando não conseguem entrar numa aldeia, ficam na cidade em volta tentando entrar, fazendo tradução da Bíblia”, explica a antropóloga Aparecida Villaça, professora do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social do Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

“Há manipulações brutais, vi traduções de trechos selecionados, e o deus deles é todo poderoso, castiga, tudo vê, tudo olha, se zanga”, descreve Lúcia Helena Rangel, antropóloga e professora da PUC-SP. Ela cita a terra onde vivem os Jarawara, na região dos rios Juruá e Purus, onde os missionários chegaram a inventar um ser invisível e demoníaco, que só poderia ser combatido se os indígenas se convertessem à religião evangélica.

Outro prejuízo da atuação dos religiosos nas aldeias se dá na organização sociopolítica, aponta a antropóloga Adriana Maria Huber Azevedo, do Cimi. E o que se vê são comunidades divididas entre os que são crentes e os que não são, os que são amigos dos missionários e os que não são.

Também se introduz a relação com o dinheiro e o estímulo à venda do que produzem, descreve a antropóloga Beatriz de Almeida Matos, da Universidade Federal do Pará: “Nos Marubo, fizeram uma lojinha, coisa absurda para os indígenas, parente vendendo coisa para outro parente”.

* Uma versão ampliada desta matéria foi originalmente publicada no site Bocado – uma rede de repórteres latino-americanos especializados na cobertura sobre sistemas alimentares.

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Atividades de garimpeiros avançam no AM e ameaçam povos indígenas isolados do Vale do Javari

Estimativa é que 6 mil indígenas de etnias diferentes morem na terra indígena. Região maior concentração de índios isolados do mundo

G1. Atividades de garimpeiros avançam no AM e ameaçam povos indígenas isolados do Vale do Javari.
Disponível em: Link. Acesso feito em: 09/10/2020.

Dragas são identificadas realizando atividades de garimpo ao lado de terra indígena no AM. — Foto: Reprodução/Univaja

Dragas são identificadas realizando atividades de garimpo ao lado de terra indígena no AM. — Foto: Reprodução/Univaja

Novas atividades de garimpo no Amazonas foram identificadas pela União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Univaja), organização que representa sete povos que vivem na região. A invasão de garimpeiros na área representa ameaça, ainda, a índios isolados.

A estimativa é que 6 mil indígenas de etnias diferentes morem na terra indígena Vale do Javari, no estado. A região também abriga a maior concentração de índios isolados do mundo.

Na semana passada, a entidade identificou pelo menos cinco dragas no rio Jutaí, funcionando dentro da Reserva de Desenvolvimento Sustentável (RDS) Cujubim, no limite da terra indígena.

No mês de março, início da pandemia de Covid-19, a Fundação Nacional do Índio (Funai) havia suspendido as autorizações para ingresso em Terras Indígenas. O órgão informou à Rede Amazônica que existem quatro bases de Proteção Etnoambiental em funcionamento no Vale do Javari.

 

Insistência de garimpeiros

Essa não é a primeira vez que garimpeiros invadem a região. Há um ano, a Polícia Federal destruiu 60 balsas na mesma área e, no mês passado, uma operação desativou quatro dragas no rio Bóia, também dentro do Vale do Javari.

Thodá Kanamari, vice-coordenador da Univaja, denuncia a tentativa de garimpeiros de comprarem apoio de líderes indígenas da comunidade do Jarinal.

“Então eles oferecem esses benefícios para eles. Recursos só para eles conquistarem a confiança para querer entrar na terra indígena. Os parentes não querem que entrem, eles não negociam com eles”, disse.

Povos indígenas vivem no Vale do Javari, no Amazonas. — Foto: Reprodução/Univaja

Povos indígenas vivem no Vale do Javari, no Amazonas. — Foto: Reprodução/Univaja

Índios isolados ameaçados

Em um avião de pequeno porte, representantes da Univaja sobrevoaram a região e avistaram malocas dos índios Korubo, que são um povo isolado. As moradias estão em locais diferentes de onde costumavam ocupar, segundo Thodá.

“Porque a presença do isolado está se aproximando cada vez mais, aí os garimpeiros entram na área para poder caçar, pescar.. Então eles ouvem tiros, né? E mudam de lugar porque eles não querem que os garimpeiros façam contato com eles e também não querem pegar tiro. Então cada vez mais vão se afastando do local”, contou.
Caçadores, pescadores, garimpeiros e missionários cercam os indígenas na região. Em setembro do ano passado, índios da etnia Matis encontraram um missionário americano e denunciaram às autoridades.

Índios isolados da Amazônia são ameaçados por presença de garimpeiros. — Foto: Arquivo/Funai

Índios isolados da Amazônia são ameaçados por presença de garimpeiros. — Foto: Arquivo/Funai

Ele estava a 20 Km da antiga aldeia dos Korubo. A nova está exatamente no local onde, naquele momento, ele foi descoberto pelos índios. Em abril, a Justiça Federal determinou a saída dos missionários, ressaltando o respeito aos povos isolados e a ameaça da Covid-19. A Justiça pediu que a Funai fizesse valer a determinação.

A área tem quatro bases de fiscalização e uma delas vem sofrendo constantes ataques de violência, segundo informou o assessor da Univaja, Beto Marubo.

“… em 2019 a base do Ituí foi atacada umas nove vezes, isso motivou inclusive a ida da Força Nacional. Agora, infelizmente, a força Nacional atua numa região mas nós temos lá 9, 10 homens super armados mas não há condição de trabalho, não há equipamentos, não há barcos, não há combustível, então finda que o trabalho né, hoje ironicamente em plena pandemia e com aparato policial na base do Ituí, nós temos o aumento das invasões nessa região ou seja algo não faz sentido né se não tiver o trabalho”, contou.

Malocas de índios Korubo são vistas na terra indígena Vale do Javari, no Amazonas. — Foto: Reprodução/Univaja

Malocas de índios Korubo são vistas na terra indígena Vale do Javari, no Amazonas. — Foto: Reprodução/Univaja

 

Proteção aos indígenas

A Fundação Nacional do Índio (Funai) informou, em nota, que atua no reforço às ações de monitoramento e vigilância territorial, por meio de suas unidades descentralizadas presentes na região. Atualmente são 4 Bases de Proteção Etnoambiental em funcionamento no Vale do Javari.

Conforme a nota, em articulação com órgãos ambientais e de segurança pública, a Funai também fortalece a proteção nos territórios indígenas por meio de operações de fiscalização para combater ilícitos, como a atividade de garimpo.

Além disso, em parceria com forças policiais e órgãos de saúde, a fundação disse que atua em barreiras sanitárias para impedir a entrada de não indígenas nas aldeias da região e evitar a disseminação do novo coronavírus entre as comunidades.

O órgão ressaltou que também participa da Operação Verde Brasil 2, deflagrada pelo governo federal para executar ações preventivas e repressivas contra delitos ambientais na Amazônia Legal.

Segundo Eliésio Marubo, procurador da Univaja, todos esses problemas têm a ver com a forma de condução da política indigenista no Brasil.

“É uma política pública que deve ser levada a sério e ela não tem encontrado lugar na conjuntura política atual. Se essa política pública for levada da forma que ela precisa ser levada observando interesse público, certamente, os servidores serão lotados, certamente, os servidores terão a segurança necessária para desempenhar a função pública”, declarou.

*Com colaboração de Daniela Branches e Luciane Marques, da Rede Amazônica.

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Rieli Franciscato: saiba quem era e veja a repercussão da morte de um dos principais indigenistas do país

Reconhecido como um dos maiores defensores dos povos indígenas isolados, indigenista morreu na quarta-feira (9) após ser atingido por uma flechada no tórax

HOLANDA, Diego e SUBTIL, Mayara. Rieli Franciscato: saiba quem era e veja a repercussão da morte de um dos principais indigenistas do país. G1.
Disponível em: Link. Acesso feito em: 10/09/2020.

Rieli Franciscato era considerado um dos maiores indigenistas em atuação no Brasil — Foto: Reprodução/Redes sociais

Rieli Franciscato era considerado um dos maiores indigenistas em atuação no Brasil — Foto: Reprodução/Redes sociais

 

Perfil de Rieli Franciscato

Nascido no Paraná, Rieli Franciscato saiu do estado de origem com sete anos de idade, passou por Mato Grosso e chegou em Rondônia no ano de 1985.

A família de Rieli, com tradição na agricultura, foi para uma propriedade vizinha: a terra indígena Rio Branco. Em 2015, em entrevista a pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB), Franciscato relatou que na infância não tinha muito conhecimento sobre a cultura indígena.

“E eu, de índio, sabia aquilo que aprendemos na escola! Não sabia nada, ou seja, sabia que o índio era sujo e que comia comidas diferentes, estranhas”, declarou Rieli na época.

O profissional lembrou que o acesso à região era muito difícil e que uma das formas dos indígenas conseguirem objetos que precisavam seria procurando as terras deles, em Alta Floresta do Oeste (RO). Assim, começou o contato entre o indigenista e os povos tradicionais da região.

“A gente ficava até um pouco preocupado, porque diziam que o índio roubava muito, aquela coisa preconceituosa mesmo com o índio, não é? E aí nossa relação foi se construindo, e fomos percebendo que não tinha nada a ver com o que ouvíamos, ou seja, era um pessoal respeitoso, que respeitava muito a gente. E foi se estabelecendo a nossa relação, foi se consolidando”.

Na entrevista concedida no Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas da Universidade de Brasília (UnB), Rieli relatou que nessa época, com a mudança na unidade da Funai que dava assistência na área, aumentou a movimentação nas terras.

“Foi nessa transição, passando da Administração Regional de Guajará-Mirim para Porto Velho, que começaram a aparecer aqueles primeiros carreadores – estradas que chegavam próximo à Terra Indígena, ou chegavam até o Rio Branco –, que davam acesso à Terra Indígena. E aí, desse momento em diante, eles acabaram ficando muito abandonados, né, e aí eles recorrendo à gente. Então veio a história da venda da madeira ali na região de Alta Floresta, que é um local muito rico em madeira, assim como na Terra Indígena. E essa exploração foi indo e foi chegando até a Terra Indígena”.

Rieli Franciscato se aproximou dos indígenas, se tornou um forte aliado e atuou na defesa do território contra invasores que roubavam madeira. Ficou conhecido e foi indicado pela Funai para começar um trabalho com os indígenas isolados da Reserva Biológica do Guaporé, em 1988.

 

Repercussão

Funai

“A Fundação Nacional do Índio (Funai) vem a público comunicar, com imenso pesar, o falecimento do servidor Rieli Franciscato, aos 56 anos, nesta quarta-feira (09), em Seringueiras, estado de Rondônia. A fundação também informa que acompanha o caso. Rieli era coordenador da Frente de Proteção Etnoambiental Uru Eu Wau Wau e somava mais de 30 anos de dedicação à proteção dos índios isolados no Brasil.

‘Rieli dedicou a vida à causa indígena. Com mais de três décadas de serviços prestados na área, deixa um imenso legado para a política de proteção desses povos’, afirma o coordenador-geral de Índios Isolados e de Recente Contato da Funai, Ricardo Lopes Dias.

A fundação lamenta profundamente a perda e manifesta solidariedade aos familiares e colegas do servidor. As equipes da Coordenação Geral de Índios Isolados e de Recente Contato (CGIIRC) e das Frentes de Proteção Etnoambiental se despedem de Rieli com carinho, respeito e admiração.”

Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB), e o Opi-Observatório dos Direitos Humanos dos Povos Isolados e de Recente Contato

Em nota os órgãos informaram que os “Isolados do Cautário”, são sobreviventes de massacres ocorridos em Rondônia desde os anos 1980, quando “o governo militar encampou um processo de colonização na região com a construção de estradas, forçando o contato que acarretou o extermínio de inúmeros povos indígenas da região”.

“A precoce partida de um dos mais experientes sertanistas da atualidade representa uma perda irreparável para o indigenismo brasileiro, como também para todos aqueles que militam em prol dos direitos humanos e da conservação da floresta Amazônica. Sua morte revela ainda a urgente necessidade de implementação de medidas efetivas de proteção dessas populações e de seus territórios cada vez mais invadidos por posseiros, madeireiros, em uma das áreas mais vulneráveis no país”.

“Além disso, alertamos para a necessidade urgente para a estruturação da Frente de Proteção Etnoambiental Uru Eu Wau Wau e a permanente vigilância dos territórios dos povos isolados da região. A morte de Rieli não pode deixar um flanco aberto para os invasores que ele sempre combateu”.

Giseli Bleggi, procuradora da República em RO

“O indigenista Rieli nos mantinha informado quase semanalmente na Frente de Proteção Etnoambiental que ele ocupava a função e ele fazia esse panorama se esses indígenas estavam tentando fazer contato ou se foi só uma aparição eventual. Agora, realmente os povos ficam muito mais vulnerabilizados porque não têm mais ele lá pra fazer esse serviço que ele fazia exemplarmente. Foi uma fatalidade, uma tragédia, porque ele era uma das pessoas que tinha maior amor à causa e defendia os indígenas. O MPF perdeu um pilar que era uma pessoa que dava apoio, suporte, nas causas que a gente protegia.”

Dom Roque Paloschi, arcebispo de Porto Velho e presidente do Conselho Indigenista Missionário (Cimi)

“Os missionários do Cimi têm uma grande estima por ele, pelo trabalho e pela dedicação ao longo de 30 anos em relação aos grupos isolados. Todo mundo sofre nessa hora.”

Ivaneide Bandeira, coordenadora da ONG Kanindé

“O Rieli era um dos maiores indigenistas desse país. Dedicou sua vida na defesa dos índios isolados e a morte dele só mostra o quanto está frágil a proteção dos povos indígenas no Brasil, o quanto está frágil a proteção das pessoas que trabalham na defesa dos povos indígenas.”

Beto Marubo, da Organização Indígena Unijava

“Eu perdi um grande amigo e companheiro de mato. A morte do sertanista Rieli Franciscato, atingido por flecha em Rondônia não poderia ocorrer em momento mais difícil para todos nós. Os isolados perderam uma das últimas garantias de sua existência. Ele foi um professor.”

Felipe Milanez, ecologista político e professor da Universidade Federal da Bahia (Ufba)

“Notícia devastadora chega da Amazônia agora: faleceu hoje o maior sertanista em atividade no Brasil: Rieli Franciscato. Foi flechado por índios isolados que protegia. Morte heroica de um grande sertanista rondoniano. Morreu defendendo os povos indígenas, confundido com invasores.”

 

‘Flecha no peito’

O policial Paulo Ricardo Bressa, amigo de Rieli, narrou os momentos que antecederam a morte do sertanista (ouça abaixo). Segundo ele, os indígenas não contactados apareceram próximos a um acesso viário conhecido como ‘linha 6’ em Seringueiras. Bressa e outra colega da corporação estavam de plantão e acompanharam a ocorrência de averiguação.

Os policiais e Rieli adentraram a região seguindo as pegadas dos indígenas. Quando chegaram na divisa, segundo o relato, viram a placa da reserva com aviso de entrada proibida. Então Rieli começou a subir um morro. A intenção era fazer um trabalho, à distancia, de monitoramento, para averiguar a migração dos povos isolados.

“A soldado Luciana estava atrás dele e eu um pouquinho atrás dela. A gente só escutou o barulho da flecha, que pegou no peito dele. Aí ele deu um grito, arrancou a flecha e voltou pra trás correndo. Ele conseguiu correr de 50 a 60 metros e já caiu praticamente morto . Nosso amigo se foi, infelizmente”, disse Bressa.

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